Ausência


“Ausência de prova não é prova de ausência” (John Michael Crichton, médico, autor, roteirista e diretor americano, 1942-2008).

Se não vejo o “predador” em um cômodo escuro não posso assegurar com segurança que ele não esteja lá. Como a Justiça é cega, ela vai negar sua existência. Acenda a luz para ver melhor. Na atual situação em que atravessa nosso país, em termos de investigações em torno de pessoas que cometem corrupção dentro do Sistema financeiro e da política brasileira, o que mais emperra a ação da Justiça é; segundo se afirma; a ausência de provas. Tudo foi concebido para facilitar a defesa dos acusados. Ter provas significa apresentar fatos concretos, palpáveis, visíveis e constatáveis para dar andamento nos casos de justiça. Em nome desse estilo de provas, nenhuma palavra, nenhum testemunho, até da mais respeitável personalidade do país, é suficiente para deslanchar a prática da justiça. Isso se deve em muito ao modelo de pensamento e de ação em que se funda a justiça, isto é, nos moldes da visão de “Ciência”. Embora o modelo de Ciência do nosso Século tenha a incrível capacidade de fazer acreditar que sem provas a verdade não se mostra, ela tem, também, a ingênua pretensão de achar que só provando o fato (nesse caso, provas concretas) é que o real da realidade se mostra. Isso é nos forçar a pensar que só vale o que pode ser provado dentro de um modelo. Daí que coisas que não são palpáveis nesta medida da Ciência demonstrável, não tem valor de real. Eis a razão pela qual estamos tão anestesiados com as investigações feitas em torno de corruptos e corruptores no cenário político nacional, pois tudo só vai a um desfecho se tiver a presença de provas palpáveis, visíveis. Nesse caso, a palavra que não é palpável não tem força de convencimento. O testemunho de alguém ou de um grupo, por mais informações justas que possa oferecer para ajudar na justiça, nada vale. No entanto, a ausência de provas não quer dizer prova de ausência, pois a ausência de alguma coisa não precisa ser necessariamente uma coisa como a Ciência impõe a pensar. Um sentimento de compaixão, por exemplo, não pode ser provado, no sentido de se poder tocá-lo com as mãos, medi-lo, espichá-lo para cá e para lá, nem colocá-lo dentro de uma redoma para estudá-lo. Para esse tipo de medida ele é tido como ausente, inexistente. Porém, ele pode ser sentido, experimentado, numa outra medida sem medida. E nessa outra medida sem medida de nossos cálculos, ele pode ser tocado não com as mãos, mas com o coração, pode ser espichado no gesto de generosidade, pode se fazer visível numa atitude de misericórdia para com um sofredor. Com outras palavras, pode ser presente. Sua presença na ausência pode ser provada, não no sentido de cálculo, mas de uma experiência de encontro. Ele é real nesse sentido. Se no atual momento do cenário político brasileiro, não se der voz àquilo que é considerado como ausência de provas nas investigações que são feitas, então estaremos usando a justiça de forma parcial, achando que só o “batom na cueca” é que pode provar alguma coisa. Isso é importante, também! Não se trata de excluir essa possibilidade. Mas é importante fazer valer essa outra faceta do que é aparentemente ausente, para que a Justiça triunfe. (Reflexão feita por Jose Irineu Neneve).

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